Megeras
Muito bom
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta
às sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
Dona Adélia sabe o que escreve. Eu é que não sei o que sinto.
A Lu viajou pra Assunción hoje cedo, pra casa da sogra. A Lu é a Lu, meu povo, não tem o que falar.
Mas sábado eu, ela e papai sentado na mesa de buraco, Waguin conta que ao contrário da moto que ele pensa em comprar pra usar lá na roça, a Lu quer mesmo é que a gente compre uma bicicleta.
A mesma frase que eu tinha dito a ele meia hora antes.
Eu e a Lu batemos de frente, uma dentro do olho da outra. "É. A gente ainda pensa igual."
(Mas eu quero uma bicicleta sem marcha, vermelhona, com buzina e frâmula do Cruzeirão, e ela quer uma bike cromada de 32 marchas ultra-mega-power. Iguais, mas bem diferentes, per supuesto.)
Luxo é comer uma bacia de almeirão refogado na banha de porco, feita no fogão de lenha na dona Elvira.
Riqueza é entrar numa ponta azul do velho Chico de calça jeans e braço dado com o Matheus, a Anna Clara e o Rene.
O resto é futilidade sem importância.
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