Davi passando notícias

Davi, ontem enquanto você via seu pai tentando consertar a velha máquina fotográfica, você soltou essa:

- Papai, a memólia  da máquina tá no carro da Vó Walquilia. Eu tilei.

Você percebeu o que estava acontecendo. Deu nome pro trem que você tirou da máquina. Informou onde é que estava e se responsabilizou por ter tirado do lugar. Davi, você ligou pra sua avó na hora:

- Vó Walquilia, a memólia da máquina tá no seu carro. Bala de pata (leia-se bala de prata, seus analfabetos), carro seu. Acha pa mim, tá?

Tia Lela achou, onde voce falou que estava. Pessoa bem linda cada vez mais sabida, eu amo você.

Vó Dó para o Davi

Vó Tina tinha (tem) uma presença tão avassaladora que não deixou muito espaço pra falar dos outros avós, com raras exceções de prosas do vô Zédico, a paz, a sabedoria, o silêncio, enfim, o Vô Zédico, que não cabe em rótulos.

Mas além de Vó Tina, Davi, (que na verdade é sua trisavó, Vó de Vô Wagner), você tem duas bisavós interessantíssimas: Vó Nendy (mãe do meu pai) e Vó Dorlina (mãe da minha mãe). Não, das suas quatro bisavós (as outras duas são Zilda Lamônica e Jacira Froide), nenhuma chama Maria, rs, apesar de ser o nome mais comum do Brasil do século XX.

A Vó Nendy é aquela que te chama de "cachorrinho da vó", acha lindo que você pinte as paredes dela, fale palavrão e duvida todos os dias que tenha sido você mesmo que saiu da minha barriga (precisando do testemunho de Tia Lela, seu pai e das suas madrinhas). É ela quem passa a mão nos seus cabelos e fala "igualzinho seu vô João", embora a cabeleira de seu bisavô fosse pretinha. É ela que levava os netos no braço, pela rua, para que a gente, muito mimadamente, comesse. É ela que não gosta de fotografia, mas conversa com as suas. É ela que fez sua tia Luciana beber a última água das roupinhas lavadas do René, e nem em sonho pode saber que suas roupas sempre foram lavadas à máquina.

O Vô Zédico não cabe em palavras. O mais perto que se traduz dele é aquela música, "O Homem Velho", que  deixou a vida e a morte para traz. Ele é o homem da palavra que não precisa ser dita, do gesto que não precisa ser dado, do olhar multicor. Meu avô. Pai da mamãe. O que se pode dizer de um homem que ao ver a filha caçula ser sepultada, aos 39 anos, (ele que já passava dos 80) ainda consegue conversar com ela pra dizer que ela estava virando flor de um jardim debaixo de um céu muito azul? Vô Zédico ( "cê vai, eu fico", e "gente que nunca morreu tá morrendo" são pérolas dele), sabe bem que ultrapassou esses medos bobos que a gente carrega, da morte inclusive.

E tem Vó Dorlina, Davi. Vó Dorlina, mãe da sua Vó Cida. A Vó Dorlina é um personagem dos bastidores. É a pessoa que faz a vida girar, as coisas acontecerem. A Vó Dorlina é uma operária, uma formiguinha essencial, porém quase invisível. Enquanto Vô Zédico é o vô que corta cana pras netas na varanda, conversando sobre a vida e o mundo, Vó Dorlina é a cozinheira escondida no fundo da casa, entre o caldeirão de canjica e o tacho de biscoito fritando (de doce para mim e Robinho, de sal para "o resto", rsrs). 

O Vô é o dengo das (muitas) netas, as histórias de Morada Nova, a emoção à flor da pele. A Vó é a força bruta, a razão,  a couraça, a que aprendeu a não pensar pra não sofrer. É ela quem, sem saber ler e escrever, faz conta de cabeça e sempre cuidou do dinheiro da casa. É ela quem fornecia comida pros peões que asfaltaram a sua rua, porque sempre viu de longe boas oportunidades de negócio. É ela que jamais foi passada pra traz numa negociação.  É ela quem aguentou firme a morte dos oito filhos bebês, e sua força pra resistir foi tamanha que ela não fala deles, me disse não se lembrar sequer dos seus nomes, porque a vida dela sempre foi pra cuidar dos vivos. É ela que, conforme contava sua avó Cida, foi a uma benzedeira pra desatar o nó que me impedia de nascer, depois de cinco dias de trabalho de parto (e resolveu, se não eu não estaria aqui te contando essa história).

Foi Vó Dorlina, Davi, que no dia em que fiz 10 anos, dormindo na casa dela com outras crianças convidadas só pra isso (e todas pacientemente me esperando acordar pra comer do café da manhã rico que ela tinha feito pra mim), me explicou, se abaixando até a minha altura: "Simone, minha filha, Deus é o que faz essa xicrinha cheia de milho virar aquela panelona de pipoca ali". E eu acreditei (e continuo acreditando). Foi nos olhos dela que reencontrei minha mãe, na primeira vez que vi Vó Dorlina depois da morte da sua avó.

Somos cinco filhos crescidos (contando a sua avó Cida), Davi. Somos 22 netos (contando gloriosas 17 netas, o Harém do Zé Dico). Somos (até agora, contando com os triamados da barriga de Rita) 28 bisnetos. Todos embalados, benzidos e acarinhados por ela. Todos com alguma coisa da invisibilidade dela. Sua tia Luciana, bebê, sendo lambida na barriguinha melada de cana. Eu, de hepatite e pirraça, esperando que ela viesse todos os dias me dar chá na boca. Aline, linda feito ela. Taciana e André, os netos "rapa do tacho", sobre a mesa do bolo de 50 anos  de casados. Minha mãe e ela no armazém de seu Raulindo de manhã, ou deitadas na mesma cama, de prosa depois do almoço. Tia Lourdes, feito ela na energia, na desinquietação. Jackson e Jaquie, os netos primeiros, gêmeos, afilhados dela e de vô. Tio Alonso, que ela tirou do chifre de uma vaca que quase o matou quando  menino. Tio Geraldo, que tem a pele dela e a calma de vô Zédico. Não é por acaso que cada um de nós temos  algo intraduzível dela. Se ela nos ama tanto, do jeito elétrico, irriquieto, acelerado dela , deve ser porque alguma coisa em nós fatalmente tem a marca  silenciosa dela.

Se Vô Zé Dico é o homem intraduzível em palavras, Vó Dorlina é a mulher que sempre se preocupou mais em fazer do que falar (e dela, além dos cabelos lisos - eu não, infelizmente - nós netas herdamos o pavor de discursos). Aprendemos desde sempre, sem que ela nunca tivesse nos dito, que no tempo gasto em palavras, os biscoitos queimavam no forno, a canjica ia acabar azedando, sem falar no porco capado jurado-de-morte, cujos pedaços precisavam urgentemente ser arrumados.  A vida não espera. 

Vó Dorlina é aquela que nunca teve tempo (nem vontade) de querer brilhar, e ainda assim, sempre  foi uma rainha. Você, Davi, descende de mulheres rainhas. Operárias-rainhas.

Nada não, meu loiro, é só pra você saber.



 

Noticiário do Davi - Sangue nos zói.

Davi foi mordido (de novo) por um coleguinha da escola (canibalzinho fédazunha. Pronto, escrevi. Blog é meu, aqui quem manda é eu).

Diante das inúmeras sugestões para a correção do pequeno delinquente, todas impublicáveis, o menino da estrela (e agora batizado), ontem, antes de dormir, definiu essa:

- Mamãe, vô CAPAR o Vitim.

Tá orgulhosa do neto do seu neto aí em cima, né Dona Tina? Como diz Pedrão Mermão, o fruto NUNCA cai muito longe da árvore...

Olha, eu sou um menino calmo, mas não me obriguem a tomar uma providência tá?

Noticiário do Davi - dos nomes das coisas

No repertório de música de ninar do Davi, tem uma músiquinha cantada pela Xuxa (sim, podem cortar o pulso), que começa assim: "eu tenho uma bonequinha, assim/ela veio de Paris pra mim...".

Vai que o Davi tava brincando com a boneca (sim, ele tem bonecas. E também panelinhas. E eu dou carrinhos e ferramentas para meninas. Cortem o outro pulso), e eu fui lá assuntar com ele: como chama essa boneca, Davi? "Essa aqui é A SIM, mamãe".

Noticiário do Matheus e do Davi - Constatações

Davi olhando pro céu armando chuva lá em Rio Acima anteontem, justo na hora em que ele ia andar de motoca na pracinha: "Olha, não to gostando disso..."

Matheus no almoço hoje: "Sabe Si, ontem eu acordei me sentindo meio lesado..."

Davi, ontem à noite: "Mamãe, eu amo você...e amooooooooooo o seu peitinho..."

Fico besta com a sagacidade dos meus rapazes.

Noticiário do Davi - na estrada, e ralando

A primeira viagem a trabalho do Davi foi aos 4 meses da minha gravidez, no sul de Minas (onde o carro rodou conosco,gosto nem de lembrar). Depois de nascido, foi aos 15 dias, em Esmeraldas (mas antes disso Davi já ia pro escritório).

Agora, ele tem ido à Rio Acima, pras reuniões noturnas com o Conselho. Enquanto eu estou na linda Estação Ferroviária, ele está dando volta de motoca na praça em frente, com o pai. Daí que virei operária da Praça, vejam só:

- Mamãe, quando é que você vai tabalhar de novo na pracinha?

Noticiário do Davi

Davi e o pai dele estão na varanda: 

- Davi, olha lá as estrelas no céu!

Davi dá a volta na varanda:

- Olha, pai, outro céu!

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  No banho, ontem, Davi dando aula pra turma imaginária:- Agora todo mundo comigo, Maternal Dois!

 

Noticiário do Davi - hora do banho

Quando me vê desembaraçando o cabelo: "Mamãe, tá machucando o seu cabelo?"

Hora de escovar dente é hora de tirar a baratinha do dente (que é como a dentista dele explica pra ele). Na hora de lavar a cabeça dele: "Mamãe, vai tirar  balatinha do meu cabeça?"

Creo que he visto una luz al otro lado del río

 

Ela quer que eu escreva. Dita pra mim em sonhos: rema, rema, rema.

Eu não tenho escrito (pra fora) porque to ficando velha mesmo. E lesa. E desinspirada (o blog é meu, invento a palavra que quiser).

Mas hoje faz onze anos que ela foi embora. Pra nunca mais voltar, como quem morre? Certamente que não. 

Pra nunca mais voltar como era antes.

Não digo isso com mágoa, com tristeza, com dor. Como aprendi esses dias, a vida não foi melhor nem pior. Só foi diferente. Perde-se o que tem  que perder. E ganha-se o que é preciso ganhar. Não há crença no destino, maktub, nada disso. É  a vida, e já não  é pouco.

Ela não viu tanta coisa. Eu também não vi.

Não vi quando ela voltou pra casa, sem festa e sem o merecido brilho, com seu diploma na mão.  Não vi quando ela decidiu que enfrentaria o que viesse pela frente, grávida, lá longe. Não  vi o que ela sentiu quando ninguém acreditava que alguém nesse mundo pudesse ser  tão sensacional quanto o amor dela (e quem acreditaria,  não o conhecendo?). Não vi o seu primeiro olhar ao pisar no “seu” novo país, talvez com o vento morno da beira do mar a lhe cerrar os olhos e embolar os cabelos,  sem falar nem ler quase nada em outra língua. Não vi o que ela viu ao abrir os olhos, de madrugada, na primeira noite em que dormiu em um beliche de alojamento, dormindo longe de nós (eu e Matheus) pela primeira vez na vida. Nem o que sentiu no terceiro dia em que constatou o que havia pra comer, passada a euforia da chegada.

Não a vi caminhando sozinha e olhando os prédios que eu amaria mais que ela, na Velha Havana. Não a vi experimentando bebidas estranhas, longe dos meus olhos de irmã mais velha meio beata besta que não bebe.  Não a vi dançando samba pra gente do resto do mundo, encantados com o corpo leve daquela menina do cabelo de cachinhos, que penteava, penteava. Não sentei na beira do mar com ela, quando o vento trouxe os seus pensamentos pra mim, aqui na banda debaixo da América.  Não senti a terra tremendo no terremoto que a deixou incomunicável por duas semanas, que me fez mandar uma caixinha de remédios via João Pedro Stédile, coisa mais  história de filme do mundo, rs.  Não a vi indo morar com o filho na casa de uma pessoa que ela mal conhecia, nem a vi quase morrer ao retornar a Cuba sem ele.  Não vi tanta coisa, porque sou criatura de raízes fincadas no ferro, e ela sabe disso.

Tampouco ela viu quando, num dia qualquer, respondi “e tem outro jeito, pai?!”, ao ser indagada se eu ia dirigir mais de mil km, visitando quatro cidades em três dias, sozinha, naquele jeep por estradas de terra. Papai retrucou: “É, vocês duas são assim mesmo. Vão lá e fazem o que tem que fazer. Nunca pararam pra pensar se podem. Vão lá e fazem.”  

Como se pensar fizesse diferença quando o importante é fazer, sem pensar pra doer menos.

Concordo com Fernando Pessoa: Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor. Tudo valeu a pena e continua valendo. Se há pontas, arestas, o que for, eu ainda não tenho sabedoria pra julgar.

Mas, nestes onze anos, ganhaste dois amores (só dentre os que vieram “do estrangeiro”, o loiro corre por  fora), um título, um grande amor – e o que perdeste, perderíamos de toda forma (um dia a inocência  passa).

 “Sobre todo creo que no todo está perdido. Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío”, diz a música que ouço.

Também creio que nem tudo está perdido. Não vou falar do tempo, da maturidade, da vida. Já chega de tanto clichê pra tão pouco texto.

“Oigo una voz que me llama casi un suspiro

Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a”

 

Continue remando, Lu. Continue remando. Sem pensar, que é como aprendemos quando sabemos que o que precisa ser feito precisa ser feito e ponto.  Diga ao Mencanta que também nosotras somos encantadas com ele,  a cada dia mais, por todos esses anos (meu sobrinho tem orgulho do meu espanhol).

E mesmo sem ter visto cada um dos seus passos nesses onze anos, me orgulho de cada um deles.

 

 

 

 

 

 

Noticiário do Matheus

Fui visitar meus avós, pais da minha mãe, e o menino do coração de bolo de coco foi também, com saudades do Vô dele. O abraço do vô Zédico (que também é um dos melhores lugares do mundo) estava mais apertado que o normal: tinha poucos minutos que Vó Dó havia sido levada pelo SAMU (mas ela vai ficar bem, ela vai ficar bem):

- Ô, Vô, eu cheguei aqui e me arrependi.

- Uai, Matheus, não gostou de me ver (e eu já pensando em dar um cocão no boi)?

- Não, Vô, me arrependi de ter ficado tanto tempo sem vir te ver...

 

Com a notícia da Vovó dodói, logo chegaram meus tios, minhas primas, e uma das minhas primas gêmeas (que vão ser tias de trigêmeos), que eu nunca sei qual das primas são. Idênticas, mesmo depois que casaram e tiveram suas filhas (e as três meninas das duas irmãs são super parecidas, também).

 

- Matheus, sabe aquela prima minha que tava no terreiro? Ela é gêmea, não sei se a gente conversou com Shirley ou Sheila, desde pequena, nunca soube identificar quem é quem...

-Ô, Si, eu entendo a sua confusão...os nomes são tão parecidos, né?

 

Noticiário do Davi

"Fui morar numa casinha, nhá, nhá

Infestada, dá, dá

De cupim, pim, pim

Saiu de lá, lá, lá

Uma lagartixa, xa

Olhou pra mim

Olhou pra mim e fez assim: MI-AAAAAAAAAAAU"

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Noticiário do Davi

Luzia levou o Davi pra brincar com os 3 cachorros aqui de casa: o Luck, a Pris e o Adamastor, filhote deles. Davi, filho e neto de quem é, já desceu a escada berrando "Tatojinho, paputa!", imitando o jeito carinhoso do pai dele chamar o cachorrinho.

Luzia chamou a atenção dele: Que isso Davi, quem te ensinou a falar essas coisas?"- O Luck!"  Ainda pensando em como é que o moleque de 2 anos já coloca a culpa no cachorro, a Lu não perdeu o rebolado: mas não pode, Davi, é feio!

Davi, muito sério, virou pro Luck na maior cara-de-pau: "ouviu Luck!? Não pode, é feio!"

Sei não, acho que vai ser um bom advogado. Escolhe bem em quem põe a culpa e ainda intimida o acusado...

 

João

Eis que, dos três, talvez ele seja o que menos saiu a mim.

Rene foi embalado pela música dos Titãs ("o acaso vai, me proteger, enquanto eu andar distraído") assim que nasceu. Era um canto pro menino viajador, pro menino que com menos de um ano já tinha morado em três países diferentes. Pro menino cujos limites geográficos continuam sendo inexistentes, um desafio para o meu destino de ser raíz fincada nas montanhas. De mim, penso que Rene herdou um jeito politico de ser e de conviver, o mesmo jeito que Davi também herdou.

João não. Não chega a ser como o poema de Manuel Bandeira ("era belo, áspero, intratável...), mas está longe dos traços políticos de René e Davi.

João não. João não é político. João não negocia. João não faz média, não ri para as visitas, não encarna o bebê fofo, embora bem o seja. João não.

João carrega em si todos os superlativos do seu nome: valentão, brigão, nervosão. Carrega ainda o nome do avô, como René também carrega o nome de um avô que eles não conheceram.

João não fala "mamãe", não chama o vovô. É mãe, vô, tudo seco, tudo claro, como quem quer se fazer entender com o mínimo de letras possíveis. Ora, para rir e ser simpático tem os outros dois, João não tá de prosa pra fazer prosa pros outros.

João não é o rei da confusão, como na música do Gil. Ao contrário. Gosta de ordem,  de cada coisa no seu porta-coisa. João gosta de or-ga-ni-za-ção.

Se não saiu a mim no gênio, é o que mais se parece comigo. Nos seus cachinhos castanhos, na boquinha beiçuda. E na sua timidez séria, talvez também tenha saído a mim também.


Mas João também sabe ser ternura.

João que leva óculos aos olhos cansados do avô.

João cujo sorriso vale mil.

João que, um dia, ainda vai me conduzir pelas ruas da cidade em que nasceu.

E me levará pela mão, e eu me sentirei segura, mais segura do que se segurasse nas mãos brincalhonas de Davi, nas mãos distraídas de René.

E eu me sentirei segura. Com razão.

Na braveza, no gênio sério, preto no branco, tem gente demais pra brincar nessa família.

Eu me sentirei segura, Buenos Aires afora, de braços dados com João.


 

Drummond

Minas não é palavra montanhosa
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas. A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos o
irrevelável segredo
chamado Minas.

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Galeria vertical varando o ferro. Eu sei, Drummond, eu penso que sei.

Adélia Prado

 

TÃO BOM AQUI

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.

 

ô meu Pai do Céu, me presenteia...

Umbigo

Seu umbigo, Davi, está enterrado sob o pé da lichia da casa em que quero que você cresça. A casa sua.

Colocamos ele lá ontem, eu, seu pai, sua dinda Anna Clara,seu dindo Guilherme.

Nada não, é só pra você saber.

Noticiário do Matheus - EXTRA

Ligação do Matheus agora, para-casa esquisito...

- Si, você sabe o que é pornocultura?

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Cinco minutos depois, ele retorna: ô Si, é um trem que é o  contrário de policultura...

Noticiário do Matheus

Na prova de ciências:

- Os neanderthais praticavam agricultura?

Não, porque não plantavam alface.

Tirando a poeira.

Não foi nenhuma tese de mestrado, mas ontem Davi apresentou seu primeiro trabalho na escola: Projeto Identidade.

 

Sim, eu to que não me aguento.

Elvio querido, tio dos meus sobrinhos, concunhado que não conheci, vá com Deus, querido.

15 anos blues

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim."

(Drummond, obviamente)

Domingo que vem completam 15 anos que não te beijo.

Mas você me beija e me acalenta e me torna mais forte e é parte da mulher feliz que eu sou todos os dias.

Todos os dias.

Noticiário do Matheus

Matheus, quantos quilômetros de estrada de terra são até a Ilha?

- Depende. Se for depressa, são 28. Se for devagar, 31.

 

Notíciario da Vó Nendy

Pampa é fralda Pampers.

Imédia é Unimed.

Clasco é crack, a droga.

Neutroti é neutrox.

Esprite é Sprite, o refrigerante.

Futrica é a centrífuga.

Dicionário da Vó Nendy, sempre trazendo atualizações pro nosso vocábulário.

Estreias do Davi

Sexta,dia 27, o menino da estrela foi ao teatro, com a tia Izabel, a dindinha, a DD, o Matheus (os padrinhos mágicos, rs) o tio Sérgio, a Amanda, o João Vitor, eu e o pai dele. Riu pra todo mundo, bateu palma, cutucou e disse "Ô!" pra moça que dormia. E terminou com uma fralda de carga cheia (não se diz "merda" quando se estréia no teatro?)

 

E ontem, ele estreou campeão da gincana de Contagem. Louco amor, meu filhote, não pela gincana em si, mas pelos queridos e queridas que te abençoam com tanto afeto.

Mineires - ou quem não entende uma palavra tampouco entende uma longa explicação

Diz o Serra que não tem como responder ao que lhe é perguntado por mineiros e baianos porque não entende os sotaques.

 

Fodas-seu, colega. Ja não ia votar nocê mesmo, agora que não voto mas de jeito manêra.

 

Você não fala a minha língua.

Noticiário do Matheus

Os meninos passaram uns dias aqui em casa nas férias. Sacaneando o Matheus, naturalmente. E Matheus é como eu, sensível, chora à toa. Sentei ele do meu lado (no colo não é mais possível) e expliquei a eles que ele precisa se equilibrar, que os meninos tem ciúmes dele, e que ele precisa pensar que ele tem o pai e a mãe pra explicar as coisas da vida pra ele - entre os meninos grandes que estavam aqui, só ele tem o privilégio de ter o pai e a mãe por perto o tempo todo - e que por isso, ele, Matheus, tem de ter paciência com os primos e amigos que estavam com ele, porque a forma deles aprenderem sobre a vida é diferente.

Passado uns dias, Matheus conversando com a mãe dele, disparou essa:

- Mãe, eu acho que eu tenho que ter paciencia com a Simone, por que ela tambem não tem mãe, né?

 

Isso mesmo, Matheus, tenha paciência comigo,  com esse mundo doido, com todo o Cosmos, porque você, menino do coração de bolo de coco,  nasceu em 1997, mas a sua cabecinha, sofisticadamente simples,   é de  2017, no mínimo.

 

Davi anda

Ontem você deu três passos em direção ao seu pai. Três passos tropêgos, mas de coluna ereta, como se não tomasse conhecimento da fragilidade dos seus passos.

Eu te amo, meu filho. Te amo meu Davi. Meu Davi. Você me fez ter certeza da existência de Deus. Encheu minha vida de alegria e delicadeza. Deu a mim o privilégio de ver os meus próprios traços em uma nova e melhorada versão, como se fosse a chance de reviver de novo e acreditar em todas as coisas de novo, inclusive em fada do dente e papai noel. Trouxe a certeza de que estamos em um ciclo, que o tempo é cíclico, e em você revejo sua avó, me vejo pequena de novo,  ao mesmo tempo em que te vejo sendo transformado no homem bom que eu quero que você seja. Eu queria escrever, Davi, no dia do seu aniversário, mês passado, do tanto que eu te amo, mas não consegui. Jamais vou conseguir.Bem como jamais vou agradecer a Deus suficientemente pelo privilégio de ser sua mãe.

Anda, meu Davi, meu menino com a estrela, vida afora, caminhos muitos, anda, meu amor, meu amor da minha vida, que o mundo agora te faz mais alto, maior, grande como eu quero que você seja. Meu Davi.

 

Noticiário do Matheus

Ele, o menino de doce de coco, conseguiu quebrar a caixa de brinquedo do Davi.

- Mas Si, custou baratinho, só 50 reais.

- Então , Matheus, a gente pode tirar do seu cofrinho

- Mas aí é caro.

 

O Davi ficou apontando pro Matheus com aquela cara mais waguinho, querendo rir e apontando o dedinho, como quem diz “quero saber de vida ruim não de ninguém"...

- Davi, ô Davi, você tá sendo cruel, tá cruando demais o tio!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana

Mamma mia

Porque cansa a minha materna beleza gente que me pergunta até quando Davi vai mamar no peito. Deixa o menino, porra.

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