
Ingrid Betancourt, bem-vinda ao mundo.

Como se houvesse jeito dessa preta ser mais bonita.
(Christiaan Oyens e Zélia Duncan)
Olhos pra te rever
Boca pra te provar
Noites pra te perder
Mapas pra te encontrar
Fotos pra te reter
Luas pra te esperar
Voz pra te convencer
Ruas pra te avistar
Calma pra te entender
Verbos pra te acionar
Luz pra te esclarecer
Sonhos pra te acordar
Silêncio pra te como ver
Música pra te alcançar
Refrão pra te enternecer
E agora só falta você
Meus verbos sujeitos
Ao seu modo de me acionar
Meus verbos em aberto pra você me conjugar
Quero, vou, fui, não vi, voltei,
Mas sei que um dia de novo eu irei..."
Vou fazer o quê? Só consigo escrever o que to ouvindo...
"Seu olhar
É pra mim um mar bravio
Onde arrisco meus navios
Toda vez que deixo o cais
Perco tudo
Esse ar de quem não sonha
O orgulho, a vergonha
Os meus pontos cardeais" Ivan Lins
Se você sabe do que to falando, fiote, porveita, porque não dura ad eternum não.
"Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava. De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava."
Ai, musa Fal. Tive uns dias de talvez outro dia. Talvez outro dia. Mas tá passando. Tomara.
Meu amor, deixa eu chorar até cansar
Vander Lee.
Ele não tá nem em Venda Nova ainda e eu já tô morrendo de saudade do filadaputa.
Leva remédio. Cuidado com as comida. Não toma friage. Não enche a mala de mão de quinquilharia. Ói a bronquite. FALA PRA COMADRE ME LIGAR. Guarda os traveller direito.

(Regi e os boi marelo. Livinha-Revolution, Vitão-Intelectum, Dani-quem-sai-aos-seus-não-degenera. Querditem se quiser, são filhos dele)
E volta logo, seu porra.
Uns e outros sem coração vão falar que vô Zédico é um personagem que quase não entra na história. Que eu falo muito da vó Tina (a bisa por parte do pai), alguma coisa da vó Nendy (a mãe de Waguin, que teve uma febre semana passada mas nem sabe de quanto foi porque o termônico tava na casa da vizinha) e quase não falo de Zé Dico e Dorlina.
Zé Dico e Dorlina são os pais de Cidoca Maria. Estão casados há 73 anos e vovô diz que ainda não sabe se vai dar certo porque "princípio de casamento é muito complicado". Tiveram 13 filhos - dos quais 8 morreram bebês - 17 netas, 5 netos e já estão em quase 20 bisnetos (nessa geração, mais ou menos equilibrada entre meninos e meninas). Vó Dorlina e Vô Zédico são primos em primeiro grau - e o irmão dele, tio Oscar, carinhosamente apelidado por mamãe de "Tio Caquinho", é casado com a irmã dela, Tia Adélia.
Meu avô parece um dândi de tão elegante. Magrinho, mui perfumado ("imagina, velho fede, não cheira") cabelo grisalho lisíssimo e farto penteado pra trás. Vô Dorlina parece índia, pele bem morena, e o cabelo mais bonito que eu já vi na vida (módique esse cabelo ruim eu herdei da vó Nendy mesmo, a estatistíca é uma ciência deveras cruel).
Eu sou a neta do coração deles. A neta para quem minha avó manda bordar pano de prato. Meu avô, entre todas as netas e bisnetas, reconhece minha voz ao telefone na primeira sílaba. Eu sou muito amada por eles, sempre fui (embora ontem uma prima disse que Simone" é mimada assim porque a mãe dela morreu" - mentira, eu já era especialmente acalentada por eles antes, meu avô me levava ao alfaiate, à igreja, a venda, me apresentava pra todo mundo; minha avó saía da casa dela pra me dar almoço no colo no dia em que eu cismava que não ia comer com mais ninguém, trazia as visitas no quarto pra me ver dormindo quando bebê, eles sempre adoraram me exibir, rs). Essa certeza (dentre outros detalhes) fez de mim essa pessoa insuportável que vos escreve.
Óbvio que uma semelhança melancólica com a mamãe machuca o coração deles - e o meu, per supuesto. O mesmo tamanho, as mesmas pernas grossas, as mesmas mãos de dedos finos, o mesmo bocão (só não herdei aquele cabelo liso, pesado...é a vida).
E ontem comemoramos o aniversário do Vô. Dentre tanta gente que tinha na casa dele, ficamos os dois, abraçados, eu e ele, num infinito particularíssimo. Vô Zédico não abraça apertando que nem vó Nendy (que é bão tamém!). Ele abraça suave. Como se o apertão pudesse quebrar aquele momento. Ontem Vô Zédico me abraçou de maneira ainda mais difícil pra nós dois. Me abraçou com a sabedoria de quem perdeu o medo de perder - ele que perdeu a filha caçula, aquela cujo retrato aos 3 anos, ele ainda carrega na carteira. Um abraço de quem foi enlouquecidamente sereno até pra ver a filha ser enterrada. Um abraço de um homem que, ao contrário de toda a sua geração, sempre se sentiu imensamente abençoado de ter tantas mulheres em sua descendência - e saber que o destino de cada um dos seus descendentes (ao contrário do que pensava a doida da vó Tina) só pertence a eles e a mais ninguém, e (talvez por isso), um abraço de um homem que se sente abençoado por ter tido uma filha que o amou tanto - ainda que por menos tempo do que ele imaginava.
Vô Zédico me abraçou ontem como se, contrariando as leis da natureza (de novo) eu é que pudesse ir embora a qualquer momento - e o seu abraço cálido, quase solto, me pareceu o acalanto de quem segura um passarinho na palma da mão certo de que ele se pode ir embora a qualquer momento. Eu, que o amo tanto. Ele, que me ama tanto. O mundo Vô, foi você quem me ensinou, o mundo não vale nada. Nem o barulho, nem a luz, as cores, o parabéns-pra-você, o mundo vô, não vale nada.
O mundo, vô, é a sua cadeira de barbeiro que você deu pra mim (primas, cortem os pulsos, rsr), é a história do fazer rapadura que você me contou, é nós dois de mãos dadas na praia, eu pequenininha andando com você de costas pro Sol, é a mamãe com a cabeça no seu ombro, eu nenem nos seus braços, naquela foto tão antiga, seus olhos miúdos brilhando, nós dois naquele abraço morno.
O mundo, vô, é uma parte boa de mim, sabe, que eu quero acreditar que herdamos todos de você.
O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal
Aliás, quem me ensinou, na prática, o que os livros representam foram dois carregadores portugueses, enormes, que, durante uma mudança, colocavam caixas de meus livros no elevador de serviço. Não me viram. Um deles, o maior, com uma pesadíssima caixa na mão, reclamou pro outro: "Quanta ignorância!". Pensei: "Quanta sabedoria!"."
A Veja, que além de ser a mais comprada, é também a mais vendida, tem o Millor emergindo do caos...só ele mesmo.
Rene pergunta pra Lu, altas horas da madrugada:
- "Mamãe, quando a sua mãe, a Maria Desaparecida, morreu, ela foi pro céu de 'ômnibus'?"
No dia das mães, Lu fez dois buquês de rosa vermelha e rosa chá. Um pra Catita e um pra mamãe.
"Mãe, pra quê vc comprou flores pra sua mãe? Ela já num tá morta??"
"Alarma, alarma, fuego em las refinerias de petróleo!!" Rene, em sonho, diz que vai ser bombeiro "como meu tío Pedro".
E o que a gente é, cebola, que vai perdendo as camadas até chegar no miolo? Eu não sei, eu não sei.
E, de repente não mais que de repente, eu careço de reinvenção. Careço, Regi, careço, pai, por mais que vocês digam que não. Porque não basta que a vida seja boa (e ela é). O rio passa,e (dizem) nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Não é necessariamente bonito, nem agradável. Mas é necessário.
Meu cabelo caiu horrores, módiquê abriu uma cratera na parte de trás da cabeça. Sim, stress. Cortei, não tinha outro jeito.
E, podem acreditar, não precisa ninguem me dizer que ficou um cu. Eu sei, eu sei.
- Anderson, dá um jeito na televisão...tava funcionando, e de repente, bifou!
Por que o Sol saiu
Por que o seu dente caiu
Por que essa flor se abriu
Por que iremos viajar no verão
Por que aqui o mundo não será cão
Eu gosto de roça. Com laptop, bons livros, telefone, comida ótima, coca-light e protetor solar. Uma beleza.
Quando o Goodzila atacar
Quando essa febre baixar
Quando o mamute voltar
Descongelado a caminhar na Sibéria
Quando invento, o mundo é feito de idéias
Colérica. Colééééérica. Vocês não sabem (eu também não sabia), mas eu sou brava demais.
Como escrever certo o seu nome
Como comer se der fome
Como sonhar pra quem dorme
E deixa o cansaço acalmar lá em casa
Como soltar o mundo inteiro com asas
Waguin tá com quatro pedras nos rins. Não dá nem pra fazer um anel pra cada filha/afilhada (é, não teve graça).
Tiranossauro Rex Tião
De dentro dos seus olhos virão
Monstros imaginários ou não
Por forte somos todos
E agora eu vivo em paz
Ainda não sabemos se é Tião ou Maria. Se é João, Kriptus Rá, Krishna-sei-lá-das-quantas (a mãe é L.O.U.C.A). Mas, como diz tia Paôlo, meu coração se encheu de flores. Amém, minha Gal.
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é teu, Sebastião
(Nando Reis)
Ô Pai, me conta uma história do seu tempo, quando tudo era preto e branco...
Pensar não é bom. Ou é, não sei. Na aula do Léo, o professor-que-fala-alemão, arquitetura vernacular é o mesmo que grego pra mim, quando ele fala em "vernáculo", eu lembro do poema do Manuel Bandeira, "Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo(...) — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação." Porque o que eu entendo é a palavra, é a palavra, é o escrito, é o dito, eu não entendo o desenho, eu sou burra pro desenho, eu tenho inveja da capacidade de quem desenha cidades inteiras no quadro, sabe? Eu não sei desenhar nem casinha com chaminé e caminhozinho ondulado. E minha mãe dizia que não se desenha nada sem chão, então eu só lembro que tem que ter chão. "Outros outubros virão, outras manhãs"? Espero que não, que de minha parte tô farta. É quase maio. Já falei que adoro as tardes de maio e de junho? As mais bonitas do ano. Eu entendo a Elis cantando, mas preciso fazer um pouco de força pra entender as torres de Gaudí. "Faz tempo que eu me perdi de você". Não me pergunta o que eu não sei te responder, faz favor? Que eu sou burra pra muita coisa e voce não sabe, ninguém sabe, porque eu finjo muito bem. E, olha só, sei até fazer cara de inteligente - tem quem acredite. Quando o endocrinologista disse que ia me encaminhar ao psiquiatra, quase que eu disse que doido era a bunda dele. Mas eu não disse, que eu sei fingir finesse e distinção. Já fui mais engraçada, já fui mais farrista, já fui mais um monte de coisa e voces não sabem o trabalho fiedapulta que dá se reinventar. Nem você, meu El Diablo de estimação, não sabe. Eu também não sei, não sabia, talvez esteja sabendo agora. Talvez. Porque a cada dia sei menos e menos. Justo eu que sempre pensei que crise existencial de cu é rola. "Que mais que tu quer, que mais que tu quer ,que mais que tu quer, cachaça samba viola mariola gaita fumo e mulher?"
O menino vinha invindo de moto (ou bicicleta, num sei) e veio o 001C Bacatão e coisou o menino debaixo da roda de trás. O ônibus parou, o motô desceu, o trocador desceu, veio os passageiro e descero, veio o menino que cata latinha, veio o pedreiro que tá consertando a praça, veio o menino de boné. Eu liguei pro 193 e a Soldada Jussara pediu pra eu ver se tinha sangue antes deles virem (sim, pediu). Se tinha fratura. E o menino ta lá perto da roda (parecia que tava debaixo mas num tava não). O motô, coitado, já passou a mão na cabeça umas 10 vezes. Agora a dona doida que tava voltando da padaria também parou lá pra ver o menino. Pusero um cone e fecharam a rua. O moço que foi buscar a menina na escola tá lá bizóiano. A ambulancia tá chegando, ao menos já tem barulho. O menino tá até conversando. Parece que o menino vai ficar bem. Chegou a ambulancia. Vão coisar o menino.
E nessa cidadezinha mais ou menos, não tem uma nêga do acarajé pra gente almoçar um trem diferente hoje.
Tenho tanto medo de tocar voce
Tocar voce e desencadear
A louça suja , a fralda suja,
A suja vida a dois,
O sujo poema do cotidiano.
Anderson na casa de 170 anos do Alambique de Passabém (totalmente relax enquanto eu tinha taquicardia de medo)...às vesperas de fazer 12 anos de idade mental...menino grande, tocarei seu nome pra poder falar de amor.
Eu que (penso que) trago a Lua entre os dedos de quando em vez (sabem felicidade que dá pra pegar? É a Lua entre os dedos, como não?), eu que tenho o privilégio de ter overbooking de amados entre as vidraças do meu poleiro, eu que me apaixonei e tenho a sorte infinita de o homem da minha vida ter me achado nessa vida. Eu que não saberia mais viver sem ele, como também não saberia mais viver sem tanta gente tão bem amada, de modo que é "como se não tivesse sido jamais" sem todos eles...Eu que tenho "estado" uma pessoa tão desesperançada, e rezo todos os dias pra que isso passe, e vai passar, se Deus quiser. Eu, que tô tão feliz, e vocês sabem porquê. Brigada, viu?
Seja festa
Pro povo em romaria
A quem grita gol e atesta a vitória da alegria
A quem nunca teve e empresta
A quem anda e assovia
A quem falta e a quem resta
Pra quem quer se alegrar
Seja festa
A quem venceu mais um dia
A quem dorme e a quem cansa
A quem ouve a melodia
Pra quem namora e dança
Pra quem vai ter e adia
Pra quem recua e avança
Pra quem quer se alegrar
Seja festa
A quem largou velharia
A quem muda de endereço
A quem ama poesia
A quem já aferiu o preço
A quem quase desistia
A quem já se olhou do avesso
Pra quem quer se alegrar
Seja festa
A quem ama bateria
A quem toca flauta e encanta
Quem nunca encantaria
A quem já não cabe e é tanto que já não caberia
A quem ama bicho e planta
Pra quem quer se alegrar
Começar, recomeçar
Seja festa
Pra quem vem da boemia
Pra quem olha o mundo e canta o prazer à revelia
Pra quem liga o rádio e espanta a tristeza e a quem varia
A quem velho e a quem criança
A quem quer se alegrar
(Essa é do Oswaldo Montenegro. Pra ele, que não lê o blog. Mas me ama demais.)
Escutem, amados, pra falar bobagem, melhor ficar muda.
- Elegância não se resume a dar nós em gravatas: marinheiros dão nós como ninguém e se vestem como o Pato Donald.
- Minha cidade é como um jogo de xadrez: para cada dama, oito peões.
- Filhos crescem, casam e têm filhos. Não necessariamente nesta ordem.
- Não dá para acreditar num país que comprou o Acre.
- Diploma universitário não serve para nada e ainda faz você perder a carteirinha de estudante.
- Quadrinhos de jornal são muito complicados: você está lendo o Recruta Zero e sem mais nem menos surge um tal de Garfield no meio da história.
- A humanidade ainda não encontrou resposta para alguns mistérios. Por exemplo, para onde vão todos aqueles japoneses que passam em primeiro no vestibular?
- É preciso reconhecer que este ano nossos parlamentares apresentaram vários projetos de emenda: emenda o carnaval, emenda Tiradentes e emenda Corpus Christi.
- Se o horário oficial é o de Brasília, porque agente tem que trabalhar na sexta e eles não.
- Tirando o Elvis, quem é vivo sempre aparece.
- Todo pesquisador é meio doido. Você acha que deve ser normal o cara que contou os pés da centopéia?
- Entre Livro e internet, prefiro livro. Pelo menos ele só cai quando durmo.
- Mais prudente é duvidar de tudo. Alias, não acredite nisto.
Tirei daqui ó: http://putasacada.blogspot.com/
Caetano Veloso
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado de seu lume
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme
O ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico, vens de Minas
De onde o oculto do mistério se escondeu
Sei que o levas todo em ti
Não me ensinas
E eu sou só eu só eu só eu
Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?
Tanta gente canta
Tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira monstruosa
A sombra do ciúme
Ah, mano Caetano. Eu que sei.
Paulo Mendes Campos
Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou (isso eu faço); quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário (serve tartaruga?); quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças(ah, isso meu ogro faz); quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira(meu ogro, idem, idem); quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz (é, faço isso também); quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
Texto extraído do livro "O Anjo Bêbado", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 105.
Em casa de algumas pessoas,eu chego reclamando que custou a abrir a porta (não importa se abriu na hora, eu quero é reclamar), jogo a minha bolsa aonde eu bem entender (não importa se é sóbre os bibelôs ou no vão da escada em cima do telefone),e vou direto pra geladeira na maior cara-de-pau. Coisa de gente que não bebeu chá em criança.
Eu não bebi, mas tenho amigos maravilhosos.
Mara Cristina de Oliveira Medeiros Oya, querida, mana do cabelo de corda. Em versão séc. XXI, agora administradora (a versão anterior era bailarina). Tenho um orgulho imenso de você, sabia? E um tanto de amor também.
Em Bom Despacho, na fonte em que a Vó Tina, a bisa, e as irmãs dela lavavam roupa com a mãe delas, vó Ana Jacinta. Muitos anos depois, vó Nendy exerceu o mesmo ofício ("E a última água que se passa numa roupa, Simone, tem de ser transparente de dar pra beber"), no mesmo lugar. E eu fui lá, no que antes era ofício e agora é bem cultural.
Eu não sei lavar roupa, mas eu fui trabalhar, viu, Vó?
Pra quem pensa em Cuba como quem pensa em Morada Nova ou Martinho Campos, pensar que Fidel desceu do trono inquieta muito meu coração.
Tento rir com a Fal e a Mani, coleguinha de curso:
"Mani says:
SE FIDEL RENUNCIOU, QUEM SOU EU PRA CONTINUAR NESSA MERDA"
Pois é.
E em casa de Waguin me chega um carnê de IPTU em nome de Cida Maria, com CPF de Waguin Ramos. Um lote. No Tropical (porque pobre é pobre até quando recebe herança). Detalhe: faz 12 anos que Cidoca passou dessa pra melhor. E o Tropical é onde Judas pôs a cueca pra quarar.
Sim, eu tenho certeza, certas coisas só acontecem comigo.

O mundo inteiro pulando, o povo brincando, e o meu menino lá, contemplando o mundo, com seus olhos serenos de quem não tem pressa nenhuma de crescer. Matheus tem um rítmo lento ante às agitações desse mundo. Tem o rítmo dos que observam, atentam, assuntam. A calma do Vô Zé Dico ("cê vai, eu fico"),a minha lerdeza, como diria minha mãe... Se é mérito ou não, não sei, acho que é mérito. Tá bom, confesso: morro de orgulho, no vagar em que ele sente o mundo. Ao menos nisso, esse menino saiu todo a mim (sorry, Lu).
"Ah! Pra onde vai, quando for
Essa imensa alegria, toda essa exaltação
Ah! Solidão, multidão"...que menino bonito, com os olhos doces de quem não tem pressa nenhuma de viver.
Dois de fevereiro não é só dia de Iemanjá. Pra quem acredita que Deus mora é na gente, como eu, dois de fevereiro é dia dela. A moça por quem o dono da venda ia pra porta pra ve-la passar. A dona de uma risada tão doce, tão linda e tão viciante que Vô Lindorino acordava vó Tina à noite, "escuta nêga, nosso povo évem, eu ouvi a risada da Walquíria", de saudade daquele riso. Eu sou toda dela, acho que sou a cara dela, acho a filha dela a minha cara, não me canso de procurar em mim espelhos em que me veja nela. Morro de orgulho quando me falam, "nossa, mas você é a cara da Walquíria". Tenho a certeza absoluta de que nunca, mas nunca mesmo, houve duas sobrinhas tão amadas, dengadas, paparicadas quanto eu e Lu. Nunca.
Tia Walquiria e Paulo, natal 2007.
"Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer?!"
Ela é musa. Não tem outra palavra que a defina. Tudo o que eu quero ser quando crescer, desde o tempo em que eu achava que ia crescer. Dois de fevereiro, sábado de carnaval, dia dela, maior que qualquer carro alegórico, mais forte que o tambor na Bahia, mais bonita que Diamantina amanhecendo. Musa.
E acontece que as coisa nunca são uma coisa só. Eu não queria crescer quando era menina, deve ter sido por isso que não cresci. A pressão da tia Walquiria em 14 por 24 tá me fazendo (mais) mole, sonsa, assustada, chorona e piegas. Gosto tanto de chuva, pedi tanto pra chover, custava eu ser grata e agradecer em vez de bancar a monga?
Mas ontem eu achei isso:

Anna Clara e Vó Tina, 1996
Foto não tem som, né? Por isso vocês não ouvem a sinfonia de risada farta da vó Tina (ainda bisa e não trisa, porque Renê inda num invinha) e de risinho raro e genuíno da Anna (aquela moça que cresce feito bambu), bebezoca fofa que só chorava. Não viram que eu me reconhecia no vestido florido de uma, e no amor que eu tenho pela outra, um amor que nasceu das vezes em que me agarrava por horas à barriga da mãe dela e só faz crescer, a despeito do tanto que ela é ogra e avessa a beijocas.
Sim, eu gosto de esnobar a riqueza de certas coisas quando em vez. Não tenho culpa de tanta gente pobre (vocês entenderam!) nesse mundo.
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